Ansiedade· 8 min de leitura

Ansiedade na psicanálise: por que ela não é vista como inimiga

A ansiedade costuma ser tratada como um defeito a eliminar. A psicanálise olha de outro jeito: para Freud, ela é um alarme. E todo alarme aponta para alguma coisa.

O coração acelera numa terça-feira qualquer. Não aconteceu nada: nenhuma notícia ruim, nenhuma briga, nenhum prazo estourado. Mesmo assim, o peito aperta, a cabeça roda em volta de coisas que nem chegam a ser pensamentos inteiros, e aparece aquela pergunta que piora tudo: "por que eu estou assim, se está tudo bem?".

A resposta mais comum é tratar a ansiedade como um defeito. Algo que está funcionando errado e precisa ser desligado o quanto antes. Respirar fundo, se distrair, pensar positivo, aguentar até passar.

A psicanálise olha para ela de outro jeito. Não como inimiga, e sim como um sinal. E um sinal sempre aponta para alguma coisa.

Ansiedade ou angústia?

Antes de seguir, uma questão de palavras. Freud escrevia em alemão e usava a palavra "Angst". Em português, ela foi traduzida de dois jeitos: algumas edições falam em "ansiedade", outras em "angústia". A edição antiga da Imago, por exemplo, traz o título "Inibições, sintomas e ansiedade". A tradução mais recente, da Companhia das Letras, usa “Inibição, sintoma e angústia”. É o mesmo texto, de 1926.

Por isso, quando você lê psicanálise, "angústia" e "ansiedade" quase sempre falam da mesma experiência: aquela inquietação no corpo e no pensamento que aparece diante de um perigo, às vezes sem que dê para dizer qual. Neste texto, uso as duas palavras.

1. Ansiedade é um sinal, não um defeito

Freud mudou de ideia sobre a angústia ao longo da vida, e essa mudança é o ponto de partida de tudo o que vem depois.

Na primeira versão, ele pensava a angústia como uma espécie de excesso: uma energia psíquica que não encontrava saída e acabava transbordando. Em “Inibição, sintoma e angústia”, de 1926, ele inverteu a ordem. A angústia passou a ser entendida como um sinal que o próprio psiquismo produz quando percebe que algo está sendo vivido como perigoso. Um alarme que dispara para avisar, e que coloca em movimento as defesas.

A diferença é grande. Se a ansiedade é um defeito, o objetivo é eliminá-la. Se é um sinal, a pergunta muda: o que este alarme está tentando avisar?

Pense num alarme de incêndio. Arrancar a bateria faz o barulho parar, mas não diz nada sobre a fumaça. Às vezes é só a torrada queimando. Às vezes não. Nos dois casos, vale olhar para a cozinha.

2. Nem todo perigo vem de fora

Se a angústia avisa de um perigo, de que perigo se trata?

Freud fez uma distinção que ajuda muito a entender a ansiedade "sem motivo". De um lado, existe o medo diante de um perigo real, externo, que está na sua frente: um carro vindo na sua direção, uma demissão anunciada, uma conta que não fecha. Ele chamou isso de angústia realística. É o tipo de reação que todo mundo entende.

Do outro lado, existe a angústia que responde a um perigo que vem de dentro. Um desejo que a pessoa não se autoriza a ter. Uma cobrança que ela mesma se faz. Um conflito entre o que quer e o que acha que deveria querer. Esse perigo não aparece no noticiário nem na agenda. Por isso a ansiedade pode chegar justamente no dia em que "não aconteceu nada".

Na verdade, aconteceu. Só não aconteceu lá fora.

3. "A angústia não é sem objeto"

Décadas depois de Freud, o psicanalista francês Jacques Lacan dedicou um ano inteiro de seminário ao tema. No "Seminário 10, A angústia" (1962–1963), ele formulou uma frase que ficou famosa: "a angústia não é sem objeto".

A frase é construída de um jeito curioso. Lacan não diz que a angústia "tem um objeto", como se bastasse procurar e encontrar a causa. Diz que ela "não é sem objeto". Ou seja: mesmo quando parece vir do nada, ela está ligada a alguma coisa. Só que essa coisa nem sempre pode ser apontada com o dedo. Muitas vezes, ainda não ganhou palavra.

Lacan também dizia que a angústia é aquilo que "não engana". Os pensamentos podem nos enganar, as explicações também. A angústia, não: ela indica que algo verdadeiro está em jogo, mesmo que ainda não se saiba o quê.

Isso muda o jeito de ouvir a frase "a ansiedade vem sem motivo".

Na psicanálise, "sem motivo" quase sempre quer dizer "com um motivo que ainda não consegui dizer".

4. Às vezes, o medo é perder o lugar

Freud descreveu uma sequência de situações de perigo que acompanham a vida psíquica desde o começo. A primeira é o desamparo do bebê, que depende completamente de alguém para sobreviver. Depois vem o medo de perder a pessoa que cuida. Mais adiante, o medo de perder o amor dessa pessoa.

E aqui está o passo decisivo: com o tempo, essa vigilância deixa de vir só de fora e passa a morar dentro. A instância que Freud chamou de supereu assume o papel de quem aprova ou desaprova, e o medo de decepcionar continua funcionando mesmo quando ninguém mais está olhando.

Para quem aprendeu cedo a ser "a que dá conta" (a responsável, a madura, a que não dá trabalho), essa conta costuma pesar mais. Se o lugar no afeto dos outros parecia depender de dar conta, falhar não é só falhar. Pode soar, lá no fundo, como risco de perder o lugar.

É por isso que a ansiedade aparece tantas vezes colada à autocobrança. Antes de uma entrega, de uma conversa difícil, de um "não" que precisa ser dito. O perigo real é pequeno. O perigo sentido é antigo. Escrevi sobre essa mistura em , e sobre a origem dessas marcas em .

Se você se reconheceu até aqui, não precisa esperar a ansiedade "ficar grave" para conversar. Eu atendo online, de qualquer lugar do Brasil.

Tânia Pinheiro, psicanalista, sorrindo, de blazer branco
Tânia Pinheiro, psicanalista. Atendimento online para todo o Brasil.

5. Calar o alarme não responde à pergunta

Quase tudo o que se faz contra a ansiedade tenta baixar o volume do alarme. Distração, controle, excesso de trabalho, rolagem infinita no celular. Algumas dessas estratégias aliviam por um tempo. O problema é que o alarme volta, porque a pergunta que ele faz continua sem resposta.

A análise propõe outro caminho. Em vez de só calar o alarme, escutar o que ele aponta. Isso acontece na fala, sessão após sessão, no tempo de cada pessoa. A ansiedade aparece em certas situações e não em outras, com certas pessoas e não com outras, depois de certas frases. Esses detalhes, que no dia a dia passam despercebidos, são justamente o material da escuta.

Dois cuidados importantes. O primeiro: a análise não promete fazer a angústia sumir, nem tem prazo. O que costuma mudar é a relação com ela. Quando o que estava sem palavra ganha nome, o alarme deixa de tocar sozinho e passa a ser entendido.

O segundo: isso não substitui o cuidado médico quando ele é necessário. Crises intensas, falta de ar, insônia que não cede, uma ansiedade que impede de trabalhar ou sair de casa merecem avaliação médica. Medicação e escuta não são rivais, e muitas vezes andam juntas.

O que dá para fazer com isso hoje

Não existe método para "resolver" a angústia, e um método seria mais uma cobrança. Mas algumas perguntas mudam a forma de olhar para ela.

Quando ela aparece? Repare no momento exato: antes de quê, depois de quê, perto de quem. A ansiedade "sem motivo" costuma ter horário.

O perigo é de fora ou de dentro? Existe uma ameaça real na sua frente, ou o que pesa é uma exigência sua sobre você?

O que eu tenho medo de perder? Não o que pode dar errado, mas o que você sente que perderia se desse errado. Às vezes a resposta é uma coisa concreta. Às vezes é um lugar.

De quem é essa voz? Quando a cobrança aparece, ela tem um tom, um jeito de falar. Às vezes lembra alguém.

Quando vale procurar escuta

Ansiedade faz parte da vida, e nem toda inquietação pede tratamento. Mas vale buscar escuta quando ela passa a decidir o seu dia; quando você começa a evitar situações, lugares ou pessoas por causa dela; quando o corpo dá sinais frequentes (aperto no peito, insônia, tensão constante); quando a autocobrança e a culpa ao parar viram rotina (falei disso em ); ou quando a sensação de que "algo vai dar errado" já virou pano de fundo.

Nada disso é diagnóstico, e um texto não substitui uma avaliação. Se você está em crise agora, ligue 188 (CVV, 24 horas) ou 192 (SAMU). Se ficou em dúvida sobre o momento de buscar ajuda, este texto pode ajudar: .

Um sinal pede escuta

A ansiedade incomoda, e ninguém precisa gostar dela. Mas tratá-la só como inimiga deixa de fora a parte mais importante: ela está dizendo alguma coisa sobre você, sobre o que você teme, sobre o que você carrega.

Na psicanálise, a pergunta não é só "como faço isso parar?". É também "o que isso está tentando me dizer?". Quando essa segunda pergunta encontra espaço, a primeira costuma ficar menor.

Se você leu até aqui pensando na sua própria ansiedade, isso já é um começo. Uma mensagem dizendo "a ansiedade aparece e eu não sei por quê" é um jeito legítimo de começar uma conversa.

Referências

  • FREUD, Sigmund. “Inibição, sintoma e angústia” (1926). In: "Obras completas", vol. 17. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. (Na edição Standard brasileira da Imago: "Inibições, sintomas e ansiedade", vol. XX.)
  • FREUD, Sigmund. "Conferência 25: A angústia". In: "Conferências introdutórias à psicanálise" (1916–1917).
  • LACAN, Jacques. "O Seminário, livro 10: A angústia" (1962–1963). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

Perguntas frequentes

O que a psicanálise diz sobre a ansiedade?

Para a psicanálise, a ansiedade (ou angústia) é um sinal. Freud, em “Inibição, sintoma e angústia” (1926), descreveu a angústia como um alarme que o psiquismo produz diante de algo vivido como perigoso. Em vez de tratá-la só como algo a eliminar, a análise procura entender o que esse alarme está apontando.

Angústia e ansiedade são a mesma coisa?

Na psicanálise, quase sempre falam da mesma experiência. Freud usava a palavra alemã "Angst", traduzida em português ora como "ansiedade", ora como "angústia", dependendo da edição. No uso clínico do dia a dia, "ansiedade" é a palavra mais comum, e "angústia" é a mais usada nos textos psicanalíticos.

Por que sinto ansiedade sem motivo?

Porque nem todo perigo vem de fora. Freud distinguiu o medo diante de um perigo real e externo da angústia ligada a um perigo interno: uma cobrança, um desejo, um conflito. Lacan resumiu isso dizendo que "a angústia não é sem objeto". Quando parece não ter motivo, costuma haver algo que ainda não foi colocado em palavras.

O que significa "a angústia não é sem objeto"?

É uma formulação de Jacques Lacan no "Seminário 10, A angústia" (1962–1963). Ela indica que a angústia sempre está ligada a alguma coisa, ainda que essa coisa não possa ser apontada com clareza, como acontece com o medo de um objeto específico. A frase ajuda a não tratar a ansiedade "sem motivo" como algo aleatório.

Como a psicanálise trata a ansiedade?

Pela fala e pela escuta, com regularidade. Nas sessões, a pessoa fala livremente, e aos poucos aparecem as situações, as frases e as histórias ligadas à ansiedade. A análise não promete fazer a angústia desaparecer nem trabalha com prazo; o que costuma mudar é a relação da pessoa com ela.

Psicanálise substitui remédio para ansiedade?

São cuidados diferentes, e um não exclui o outro. Quando há sintomas intensos, como crises frequentes, falta de ar, insônia persistente ou prejuízo importante na rotina, a avaliação médica é necessária. Medicação e escuta podem andar juntas.

Dá para fazer análise online?

Sim. As sessões acontecem por videochamada, com uma hora reservada, uma vez por semana, no mesmo dia e horário. O que sustenta o trabalho é a fala, a escuta e a regularidade, e nada disso depende do espaço físico.

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