Saúde mental· 6 min de leitura

A psicanálise tem base científica?

Uma dúvida legítima de quem pesquisa antes de escolher: isso tem comprovação, ou é tradição? Fui atrás do que as pesquisas dizem — inclusive do que elas não dizem.

Quem pesquisa antes de marcar a primeira sessão cedo ou tarde esbarra na mesma dúvida: a psicanálise tem comprovação científica, ou é uma tradição que se sustenta por prestígio?

É uma pergunta justa. A resposta honesta tem duas partes: existe pesquisa, e mais do que a fama sugere — e existe uma distinção importante que quase nunca é feita quando alguém cita esses estudos.

Primeiro, o que exatamente foi estudado

As pesquisas que sustentam a eficácia não estudaram a psicanálise clássica, aquela de divã e várias sessões por semana. Estudaram a psicoterapia psicodinâmica: sessões semanais, de cerca de cinquenta minutos, frente a frente, com a mesma base teórica da psicanálise.

É exatamente o formato que eu ofereço. Faço questão de dizer isso porque é comum ver a evidência da psicoterapia psicodinâmica usada para falar de uma prática bem diferente — e essa imprecisão não ajuda ninguém.

O que as pesquisas encontraram

Em 2017, o American Journal of Psychiatry publicou uma meta-análise que reuniu 23 ensaios clínicos randomizados e 2.751 pacientes. A pergunta era direta: o resultado da terapia psicodinâmica é equivalente ao dos tratamentos já estabelecidos? A resposta foi sim — a diferença entre elas ficou dentro da margem de equivalência definida antes do estudo. Em 21 dos 23 ensaios, a comparação era com a terapia cognitivo-comportamental.

A revisão Cochrane, padrão mais rigoroso de avaliação em saúde, analisou 23 estudos e 1.431 participantes em psicoterapia psicodinâmica breve e encontrou melhora consistente nos sintomas, mantida nos acompanhamentos posteriores.

O achado que mais me interessa

Há um resultado que se repete nessa literatura e que diz respeito exatamente ao que a psicanálise se propõe a fazer: os ganhos tendem a se manter depois que o tratamento termina — e, em vários estudos, a continuar aumentando.

Em muitas abordagens o efeito é maior no fim do tratamento e vai diminuindo com o tempo. Aqui a curva costuma ir para o outro lado.

Faz sentido. O trabalho não é treinar uma resposta para uma situação específica; é mudar a forma como você entende o que sente. Quando isso acontece, não para quando a sessão acaba.

O que as pesquisas não dizem

Essa é a parte que costuma ser omitida, e para mim é a mais importante.

  • Não dizem que vai funcionar para você. Meta-análise fala de médias entre centenas de pessoas. Nenhuma terapia serve para todo mundo, e ninguém pode garantir um caso individual.
  • Os próprios autores pedem cautela. A revisão Cochrane aponta que os estudos são heterogêneos entre si e pede pesquisas maiores e mais padronizadas.
  • A psicanálise clássica, de alta frequência, tem literatura bem menor. Quem afirma o contrário está esticando o dado.

E o que decide, então

A evidência serve para dizer que a escolha do método não é questão de fé. Ela não decide sozinha.

Um achado recorrente na pesquisa em psicoterapia é que a relação entre as duas pessoas pesa muito no resultado, às vezes mais do que a abordagem em si. É por isso que eu insisto que a primeira conversa não tem compromisso: não dá para saber por currículo se você vai se sentir à vontade comigo. Dá para saber conversando.

Referências

  • Steinert, C. et al. (2017). Psychodynamic Therapy: As Efficacious as Other Empirically Supported Treatments? A Meta-Analysis Testing Equivalence of Outcomes. American Journal of Psychiatry.
  • Abbass, A. et al. Short-term psychodynamic psychotherapies for common mental disorders. Cochrane Database of Systematic Reviews.
  • Shedler, J. (2010). The Efficacy of Psychodynamic Psychotherapy. American Psychologist, 65(2), 98–109.

Perguntas frequentes

Psicanálise e psicoterapia psicodinâmica são a mesma coisa?

Não são idênticas, mas compartilham a mesma base teórica. A psicoterapia psicodinâmica é o formato estudado na maior parte das pesquisas — sessões semanais, frente a frente — e é o formato que eu ofereço.

A psicanálise funciona tanto quanto a terapia cognitivo-comportamental?

A meta-análise publicada em 2017 no American Journal of Psychiatry testou exatamente isso, com 23 ensaios clínicos randomizados, e encontrou resultados equivalentes na maior parte das comparações. Equivalente não quer dizer igual para cada pessoa: abordagens diferentes servem a pessoas diferentes.

Quanto tempo leva para fazer efeito?

Varia, e desconfie de quem der um número fechado. As pesquisas de psicoterapia psicodinâmica breve costumam trabalhar com processos de alguns meses, e processos mais longos existem e são comuns. O que dá para combinar desde o começo é a frequência: uma sessão por semana.

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